O que os melhores gerentes de rebanho fazem diferente – e a ciência prova

Como a rotina diária do gestor impacta diretamente a saúde do rebanho, a produção e a longevidade das vacas

A fazenda mudou. A gestão acompanhou?

Nos últimos 20 anos, a pecuária leiteira se transformou profundamente. Os rebanhos cresceram, a tecnologia avançou, e as exigências de eficiência aumentaram em ritmo acelerado. Uma fazenda leiteira moderna opera com sistemas automatizados de ordenha, alimentação informatizada, monitoramento reprodutivo por protocolos e controle sanitário permanente.

Toda essa complexidade tem um ponto central: o gerente de rebanho – a pessoa responsável por fazer o sistema produtivo funcionar no dia a dia.

Mas como esse profissional realmente usa o seu tempo? E o que a rotina diária dele tem a ver com os resultados produtivos e sanitários da fazenda?

Um estudo publicado no Journal of Dairy Science (Vol. 109, No. 1, 2026) tentou responder exatamente essa pergunta. Os pesquisadores da Universidade de Leipzig, da Universidade de Halle e do Instituto Federal de Pesquisa Animal da Alemanha foram a campo para acompanhar gerentes de rebanho durante semanas e registrar cada minuto do seu trabalho.

Quem é quem na fazenda moderna

Antes de apresentar os resultados, vale entender a estrutura de gestão que o estudo analisou – porque ela é relevante para interpretar os dados.

O estudo distingue dois perfis de gestão nas fazendas avaliadas:

Gerente Geral da Fazenda (farm manager) Responsável pela gestão estratégica e econômica da propriedade. Toma decisões sobre nutrição (aprovação e controle de dietas), finanças, compras, estrutura de pessoal e relação com consultores externos. Não necessariamente tem contato diário intenso com os animais. Em fazendas menores, pode ser o próprio proprietário.

Gerente de Rebanho (herd manager) Responsável pela execução e controle do sistema produtivo no dia a dia. É o profissional com maior contato direto com os animais. Coordena a equipe operacional, acompanha prestadores de serviço externos (veterinário, inseminador, podólogo), documenta eventos do rebanho e – quando bem organizado – monitora ativamente os indicadores de saúde e produção.

Importante: essas definições são uma síntese do que o estudo descreve na prática. O paper não apresenta definições formais dos cargos, mas os distingue claramente ao longo da metodologia e da discussão dos resultados.

Como o estudo foi conduzido

O estudo foi realizado em 10 propriedades leiteiras no estado de Brandemburgo, na Alemanha. As fazendas tinham em média 592 vacas da raça Holandesa (variação de 229 a 1.221 animais), produção média de 9.690 kg de leite comercializado por vaca por ano e taxa de descarte de 32,9%.

A metodologia foi rigorosa: um pesquisador seguiu cada gerente de rebanho ao longo de um período de 3 semanas (média de 13 dias úteis por fazenda), documentando as atividades minuto a minuto. Para minimizar interferências, o pesquisador manteve discrição total e os gerentes não foram informados sobre a hipótese central do estudo.

Ao todo, foram registradas em média 954 atividades e 109 horas por fazenda, totalizando 1.092 horas documentadas em todo o estudo. Todas as atividades foram classificadas em 13 categorias principais.

Como o gerente de rebanho usa o tempo?

Os resultados mostraram um padrão que surpreende pela sua realidade: o gerente de rebanho passa a maior parte do dia em comunicação, organização e acompanhamento de terceiros, não em monitoramento ativo do sistema produtivo.

Veja como o tempo foi distribuído em média nas 10 fazendas:

Categoria de atividade% médiaVariação entre fazendas
Comunicação17%9% – 23%
Organização e movimentação de animais17%11% – 28%
Acompanhamento de prestadores externos12%4% – 29%
Documentação animal11%3% – 19%
Controle animal9%4% – 16%
Tratamento e medidas de saúde animal9%2% – 16%
Assistência a funcionários5%1% – 11%
Troca de turno / cobertura de funcionários5%0% – 30%
Controle de processos5%0% – 9%
Administração e escritório4%1% – 9%
Alimentação1%0% – 3%
Outras atividades2%1% – 5%
Não registrado3%0% – 11%

O dado sobre alimentação chama atenção de forma especial: apenas 1% do tempo do gerente de rebanho foi dedicado ao controle do processo de alimentação.

O estudo explica por quê: em praticamente todas as fazendas avaliadas, o controle da alimentação era responsabilidade de outra pessoa no nível gerencial da propriedade – em geral, o gerente geral ou proprietário – enquanto a formulação das dietas ficava nas mãos de consultores externos vinculados a empresas de insumos. Resultado: o profissional com maior contato diário com os animais não era o mesmo responsável por controlar o que eles comem.

Considerando a relação estreita entre nutrição e saúde animal – especialmente no período de transição – os próprios pesquisadores classificaram essa separação de responsabilidades como um potencial fator de risco para a saúde e produtividade do rebanho.

A variabilidade entre fazendas é enorme

Um dos achados mais importantes do estudo foi a grande heterogeneidade entre as propriedades.

O tempo dedicado à troca de turno e cobertura de funcionários variou de 0% a 30% do dia. Isso significa que, em algumas fazendas, o gerente passava até um terço do dia realizando tarefas delegáveis – substituindo funcionários, por falta de mão de obra ou por escolha organizacional – em vez de exercer funções estratégicas de controle e gestão.

Em algumas propriedades, como as fazendas U e P, 82% e 77% das atividades diárias eram focadas em gestão e organização. Em outras, como as fazendas S e Z, esse percentual caía para apenas 51% e 43%, com o gerente absorvendo funções operacionais básicas.

Essa variabilidade revela que o problema, em muitos casos, não é a falta de tempo – mas sim como o tempo disponível é utilizado.

O que separa as fazendas com melhores resultados

O estudo dividiu as 10 fazendas em dois grupos: aquelas cujos gerentes dedicavam mais tempo do que a média a atividades de controle (controle animal, alimentação e controle de processos) e aquelas que dedicavam menos.

Os resultados foram expressivos:

IndicadorFazendas com menos controleFazendas com mais controle
Atividade de controle (% do dia)10,4%18,7%
CCS (mil células/mL)288205
Taxa de descarte35,3%30,4%
Vacas paridas (% do total de partos)65,8%73,2%
Produção vitalícia (kg)30.40036.698
Taxa de mortalidade9,7%5,9%
Perdas na recria (até 3 meses)8,3%3,5%

Os gerentes do grupo com mais controle dedicavam quase o dobro do tempo a atividades proativas em comparação com o outro grupo (18,7% vs. 10,4%). O resultado foi uma diferença substancial em praticamente todos os indicadores sanitários e produtivos:

  • CCS 29% menor
  • Mortalidade adulta quase 4 pontos percentuais menor
  • Produção vitalícia 21% superior
  • Perdas na recria menos da metade

O estudo concluiu que não foi o total de horas trabalhadas que determinou os resultados – e sim a qualidade e o foco das atividades realizadas, especialmente o tempo dedicado ao controle proativo do sistema.

O grande desafio da gestão moderna

Na prática, o gerente de rebanho moderno precisa dar conta simultaneamente de:

  • Saúde animal e protocolos sanitários
  • Reprodução e manejos reprodutivos
  • Ordenha e qualidade do leite
  • Gestão de equipe e cobertura de turnos
  • Indicadores produtivos
  • Acompanhamento de prestadores externos

O gargalo raramente é falta de informação. Na maioria das fazendas, os dados existem. O gargalo real é tempo e capacidade para transformar dados em decisões rápidas e a rotina do gerente muitas vezes não deixa espaço para isso.

Tecnologia como aliada da capacidade de controle

O estudo não avaliou diretamente o uso de tecnologia, mas suas conclusões apontam com precisão o problema que as ferramentas digitais ajudam a resolver: como ampliar a capacidade de monitoramento do gestor sem aumentar proporcionalmente a sua carga de trabalho.

Os próprios autores destacam que sistemas digitais estão ganhando relevância crescente no controle de saúde e produção animal e que seu impacto na eficiência operacional precisa ser avaliado criticamente, incluindo o tempo consumido por alarmes falsos e manutenção técnica.

Softwares de gestão, inteligência artificial aplicada, diagnósticos rápidos e plataformas de análise de dados permitem que o gerente de rebanho:

  • Acesse indicadores críticos do rebanho de forma ágil, sem depender de registros manuais
  • Identifique padrões de alerta antes que se tornem problemas clínicos
  • Reduza o tempo gasto em atividades administrativas e libere mais tempo para controle ativo
  • Tome decisões baseadas em dados históricos e comparativos do próprio rebanho

Como a Rúmina trabalha nesse desafio

A Rúmina foi construída para atuar exatamente no ponto que este estudo identificou como crítico: transformar dados da fazenda em decisões mais rápidas e gestão mais eficiente.

O Ideagri centraliza os dados produtivos e sanitários do rebanho, tornando o monitoramento mais ágil e estruturado – e liberando o gerente de atividades manuais de documentação para focar no que realmente importa: o controle do sistema.

O Rúmina Insights agrega indicadores de milhares de fazendas, permitindo que cada produtor entenda como seu rebanho se posiciona em relação às melhores referências do setor – a mesma lógica de benchmarking que embasou este estudo.

O Rumi AI leva essa inteligência diretamente para o WhatsApp do gerente e todos os colabodores da fazenda: respostas rápidas sobre indicadores do rebanho, alertas e dados acessíveis a qualquer momento, sem precisar abrir sistemas no computador.

E o OnFarm aproxima o diagnóstico microbiológico da rotina da fazenda, reduzindo o tempo entre a coleta e a decisão clínica – exatamente o tipo de controle proativo que o estudo mostrou estar associado a melhores resultados.

Não se trata de substituir o julgamento do veterinário ou a experiência do gerente de rebanho. Trata-se de dar a eles mais tempo e mais informação para exercer o que a ciência confirmou ser decisivo: o controle ativo e proativo do sistema produtivo.

Conclusão: a diferença está em como o tempo é usado

O estudo publicado no Journal of Dairy Science deixa uma mensagem clara e bem fundamentada: nas fazendas leiteiras modernas, a diferença entre os melhores e os piores resultados não está apenas na genética, na nutrição ou na infraestrutura.

Está em como o gerente de rebanho usa o seu tempo.

Fazendas onde o gestor dedica mais atenção ao monitoramento proativo do sistema têm vacas que vivem mais, produzem mais e morrem menos. E é possível ampliar essa capacidade de controle sem necessariamente trabalhar mais horas – desde que as ferramentas certas estejam disponíveis e a organização do trabalho seja pensada estrategicamente.

Gestão moderna é gestão baseada em controle ativo. E controle ativo exige dados – e tempo para usá-los.


Referência: Schären-Bannert M. et al. Analysis of herd manager daily routines and interrelations with production and health and economic key figures of dairy farms – A case study. Journal of Dairy Science, Vol. 109, No. 1, 2026. https://doi.org/10.3168/jds.2025-27165

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